O Poço é o filme recomendado pelo ZN Notícias para este fim de domingo. Por Brenno Baldino

O poço pode ser visto como uma alegoria ou metáfora  sobre o lado mais faminto e obscuro da sociedade, um sistema capitalista e sua luta de classes. É um filme que incomoda, demora a passar por tirar o espectador da zona de conforto e faz pensar sobre as desigualdades. A trama faz inúmeras referências a Dom Quixote, livro de Miguel de Cervantes é a importância da educação como elemento único e revolucionário na sociedade.

O cenário do filme é uma prisão vertical, com uma cela em cada andar e um vão aparentemente infinito que trespassa todas elas. Por esse vão, desce um banquete em uma plataforma que fica parada poucos segundos em cada andar. Os detentos – dois por cela – precisam se alimentar durante o tempo em que a comida está ali, ou seja, quanto mais embaixo a pessoa estiver, menos alimentos chegarão para ela.

A metáfora é bastante simples, assim como aqui fora, no poço, os que estão em cima recebem todos os recursos (no caso, a comida), e os que estão embaixo lutam por restos. O principal personagem da história é Goreng (Ivan Massagué), um homem que acorda na cela sem saber exatamente o que está acontecendo. Seu companheiro, o velho Trimagasi (Zorion Eguileor), explica o funcionamento do poço sempre pontuando o quão óbvia é a situação. Nesse cenário, enquanto Goreng tem dificuldades de aceitar o cenário, Trimagasi funciona como o cidadão conformado, aquele que diz “é assim mesmo, o que se pode fazer?”.

O jogo dos opostos toma forma entre os companheiros de cela, o que é representado pelos objetos que cada um leva para o poço. Todos os detentos podem ter uma coisa e, enquanto Trimagasi carrega uma faca, Goreng leva um exemplar de Dom Quixote. “Isso não serve para nada aqui”, diz o velho. É o duelo entre a violência e a cultura, de certo modo. De que serve um livro em uma sociedade onde milhares morrem de fome? Quando a lei é matar ou morrer, um livro parece supérfluo, o que torna mais simbólico o ato de Goreng quando está enlouquecendo, dias sem comida: ele come as páginas de seu livro.

Um dos grandes atrativos do longa é que ele se passa em um só lugar, mas nem por isso deixa de despertar a atenção do público. A dinâmica entre a comida farta para alguns e o que fica para os outros faz com que o longa não fique chato ou repetitivo pela falta de cenários.

A dinâmica sobre a desigualdade lembra ainda outras produções como O Expresso do Amanhã (2013), que mostra um sistema parecido, dessa vez em um trem em movimento. Já em O Poço, há as etapas das pessoas que estão em cima, as que estão embaixo e as que “caem”.

A expectativa sobre a mudança de andares é outro ponto positivo. Junto com os personagens, os espectadores acompanham qual é a realidade de quem está acima e também de quem está abaixo, em uma realidade ainda pior do que a do protagonista Goreng. 

Outro ponto interessante é a atuação do elenco, que transmite toda a agonia pela fome e também o momento de mudança: após tanto tempo passando necessidade, a vontade ao chegar ao andar mais alto é fazer o mesmo que os outros, comer sem se preocupar com os demais.

O poço não tem nada de extraordinário mas é aquele que relata o momento que vivemos e grita o que estamos sentindo nesse momento.

Brenno Baldino 

27 anos –  Formado em Sistemas de Informação na Universidade Federal Fluminense – UFF

Os filmes têm o poder de nos tirar da nossa realidade e não falo apenas das histórias contadas em filmes, grande parte da nossa vida é regida por narrativas desde que nascemos.

Um comentário em “O Poço é o filme recomendado pelo ZN Notícias para este fim de domingo. Por Brenno Baldino

  • julho 5, 2020 em 11:44 pm
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    Muito boa a recomendação! Gostei muito!

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